A morte aos 150 anos ?

Estão em curso as comemorações dos 150 anos de existência dos caminhos de ferro no Barreiro.
Desde que se iniciaram os transportes ferroviários no Barreiro, desempenharam sempre e ao longo destes 150 anos, um papel muito importante no desenvolvimento da cidade e da região.
Foram os caminhos de ferro quem veio proporcionar e facilitar o transporte de mercadorias e cargas, servindo os interesses económicos da Região, sobretudo no que toca ao transporte de mercadorias e matérias primas de e para as fábricas de cortiça que laboravam no Concelho. Em simultâneo, a sua existência veio revolucionar os movimentos migratórios, já que passou a ser possível que os povos mais a sul se pudessem deslocar com alguma comodidade e facilidade para a zona de Lisboa.
Foi a existência do caminho de ferro no Barreiro, um dos factores que levaram Alfredo da Silva a querer instalar a CUF na vila do Barreiro, pois o escoamento dos produtos produzidos e a carga das matérias primas para a sua produção, far-se-ía através do transporte ferroviário.
Com efeito, o transporte ferroviário era e é um meio de locomoção alternativo na mobilidade de pessoas e transporte de mercadorias.
Nos fluxos urbanos, suburbanos, regionais e de longo curso este meio de transporte concorre com os meios rodoviários, representando inúmeras vantagens, dadas as suas grandes capacidades direccionadas e vocacionadas para o transporte de massas.
È vantajoso em relação ao transporte rodoviário, quer o colectivo, quer o individual, de diversas formas.
Os transportes ferroviários permitem o transporte de pessoas, a curtas distâncias, em zonas internas das cidades, interligando zonas metropolitanas dos centros e estabelecendo ligações entre uma cidade a outra e entre regiões, sendo ainda bastante útil no que diz respeito às ligações a aeroportos (transporte de passageiros) e portos (transporte de mercadorias).
As populações nas grandes cidades, por força das migrações rurais, e do fluxo imigratório, têm vindo a aumentar, sentindo-se cada vez mais necessidade de transportar de forma rápida, segura e cómoda, estas populações.
Este meio de transporte, servindo sobretudo, as grandes áreas urbanas, facilita a mobilidade das populações, aumentando a sua qualidade de vida, pois representa um descongestionamento do tráfego rodoviário e uma redução significativa na emissão de poluentes.
Sobretudo nos comboios de longo curso, nos últimos anos, tem-se assistido a um aumento significativo do número de passageiros transportados, mantendo-se e alargando-se essa tendência nos comboios urbanos, sobretudo nos troços onde as linhas já funcionam de forma electrificada, como é o caso da Linha do Sado.
Os transportes ferroviários de passageiros, são classificados como “rede secundária”, caracterizada por ser uma rede adaptada às circunstâncias da respectiva área geográfica onde se insere, nomeadamente, a densidade populacional a mobilidade e as actividades económicas instaladas.
A exploração desta rede secundária, dedicada ao serviço de passageiros, é, regra geral, objecto de parcerias, quer com autarquias locais quer com outras entidades, públicas ou privadas, que demonstrem ter interesse em viabilizar este meio de transporte como forma de mitigar as dificuldades sentidas pelas populações nas suas deslocações diárias, através do uso da rede ferroviária.
E se actualmente, as estações ferroviárias perderam a importância que tinham no Século XIX , quando foram responsáveis pela dinamização das cidades, ou até pela formação de alguns núcleos urbanos, não nos podemos esquecer que elas constituem referências locais incontornáveis da nossa história como povo, fazendo parte da identidade de uma vila ou de uma cidade, ou até de alguns pequenos núcleos urbanos que se desenvolveram ou que foram criados, em redor das estações ferroviárias.
A progressão natural de qualquer meio de transporte, tal como é o caso do transporte ferroviário, é a sua evolução para meios mais céleres, fomentando a ligação rápida dentre cidades e núcleos urbanos.
O transporte ferroviário tem assim vindo a evoluir para a chamada “ alta velocidade”, que se destina a aumentar a eficácia da mobilidade das populações.
A necessidade de evoluir para uma rede de alta velocidade nos transportes ferroviários, prende-se com o facto de estes poderem ser uma alternativa eficaz às auto-estradas congestionadas e aos aeroportos igualmente congestionados.
Em quase todo o mundo, Países como o Japão, a Coreia do Sul, e os Países Europeus, continuam a desenvolver sistemas de transporte ferroviário, de alta velocidade.
Na Europa, após o sucesso do TGV francês, foram vários os países que lhe seguiram o exemplo, de tal modo, que hoje, a expansão da rede de alta velocidade é um objectivo comum quase todos os Países Europeus, incluindo Portugal, constituindo uma prioridade inerente à criação da Rede Transeuropeia de Transporte.

As principais vantagens do transporte ferroviário, são:
a)Grande capacidade de transporte;
b)velocidade operacional é elevada;
c)um custo operacional baixo;
d)tráfego em vias exclusivas;
e)energeticamente económico;
f)segurança;
g)transporte público mais eficiente e ecológico;0,6% das emissões de gases tóxicos na atmosfera;
h)Nos comboios movidos a electricidade, não é necessário investir em unidades de propulsão (basta alterar as fontes de energia na produção da energia eléctrica);
i)As infra-estruturas ferroviárias ocupam 2 a 3 vezes menos terra por unidade de passageiros ou de carga do que as infra-estruturas necessárias aos outros sistemas de transporte.

É claro que também apresenta desvantagens, já que não é um transporte quase de porta-a – porta, e tem custos de investimento em infra-estruturas elevado, para além de, muitas vezes, não ser compatível com a forma como o nosso território urbano está desenhado, o qual, como se sabe é caracterizado exactamente por um desordenamento urbano, o que dificulta a promoção da intermodalidade.
Em suma, o transporte ferroviário, cujos 150 anos agora se comemoram, tiveram e podem continuar a ter um papel muito importante no desenvolvimento das cidades e das regiões com largas vantagens em relação ao transporte rodoviário, sendo esse pensamento o comum a todos os Países da União Europeia e até do Mundo, defendendo-se que o comboio é o transporte público do futuro.
Vivemos hoje tempos conturbados em termos económico/financeiros e sociais, sendo público que a CP e as empresas que compõem o Grupo, preconizam para breve o encerramento de alguns sectores ou segmentos de caminhos de ferro, com os inerentes despedimentos, que no caso, atingirão cerca de 600 trabalhadores.
No Barreiro, perspectiva-se o encerramento das oficinas da EMEF, prevendo-se mais desemprego no Concelho e a perda de um importante segmento dos caminhos de ferro, já que o trabalho que actualmente é executado nas oficinas seria transferido.
A crise veio igualmente travar o andamento do investimento na rede de alta velocidade, implicando a possibilidade real de não se concretizar no Concelho a criação do chamado “pólo ferroviário” que, de certa forma, serviria para atenuar os efeitos da transferência da EMEF e manteria, certamente, as características concelhias do Barreiro como terra de ferroviários.
Não deixa de ser irónico que, no momento em que se comemoram os 150 anos dos caminhos de ferro, enaltecendo-se as suas vantagens e os seus contributos para o desenvolvimento do Barreiro e da Região, esteja em risco a manutenção das oficinas da EMEF, comprometendo-se a possibilidade de continuarmos a ser uma “terra de ferroviários”, perdendo-se mais um pedaço da identidade do Barreiro, do seu passado e da sua história feita de trabalho e de luta.

 Dulce Reis

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