OS COMBOIOS NO BARREIRO : UM LEGADO,UMA MEMÓRIA,UM FUTURO [IV]

   E. O «CAMPUS» ARQUEOLÓGICO DA EX- CUF/QUIMIGAL

      NOTA BIOGRÁFICA

       O «campus» arqueológico industrial da ex-CUF/Quimigal, compreende o Bairro Operário, os legados do Campo de Stª Bárbara ( bancada e recintos), a Casa-Museu e o Mausoléu de Alfredo da Silva, o edifício do Comando-Caserna do Destacamento da GNR,o edifício do antigo Refeitório 3 e parte da Fábrica de Óleos com equipamentos funcionáveis.

       Começadas a construir logo em 1910, as casas para os trabalhadores,tiveram a máxima expressão na construção do Bairro Operário «Velho» (a partir dos anos 30 e destruído nos anos 60), a que se seguiu o Bairro Novo, no sítio de Stª. Bárbara, já com casas para chefias intermédias e quadros superiores.

       EVOCAÇÃO DA MEMÓRIA

       A OCUPAÇÃO MILITAR

       A companhia da GNR destacada no Barreiro, marcha a pé em formação rigorosa até à porta do Refeitório 3 e os soldados entram na ampla sala distribuindo-se pelas mesas,aguardando em sentido a ordem para o incío da refeição, às 11.30 horas em ponto :

       -Atenção, companhia! «Sen op»! À vontade !

       Há 26  anos que a Guarda Nacional Republicana ocupa militarmente o Barreiro,desde a violenta repressão das grandiosas greves de 1943, aboletadas no edifício ao lado da casa do patrão Alfredo da Silva, a expensas dos patrões seus descendentes.

       Hoje é um dia especial, o almoço dos «gnr’s» é rápido porque as tarefas urgem. Ao início da tarde, ainda a azáfama é grande da gente operária a entrar e a sair de e para o almoço, quando os guardas tripulantes pôem a roncar os blindados e os carros de assalto com lagartas, espreitando de careta medonha à porta das garagens, mesmo ao lado do refeitório.

       O periodo é caracteristico, dentro de poucos dias será o 1º de Maio do ano de grandes lutas de 1969. Os tanques vão sair em «demonstração de forças» !…

        CRÓNICA BREVE

        O RIO JÁ SE SENTE !…

       A  aproximação do rio já se sente com o cheiro a maresia, um misto de aerossol de salinidade e partículas de lodo, tão característico das zonas ribeirinhas. A ligação ao rio Tejo, que agora se reforça, devolve ao Barreiro a sua identidade fluvial e aluviar. Na margem esquerda da grande estrada de água, berço de civilização e caminho de vida, que já foi de pesca, de cortiça, de indústria pesada, de transporte ferroviário e hoje se deseja de produção modernizada  e criadora de trabalho, também com os comboios, como sempre foi o seu traço distintivo.

       Acedemos à área arqueológica industrial pela linha férrea recuperada ao longo da Alameda do Tejo (proposta). As dezenas de visitantes vão ter de sair para darem um passeio a pé e ouvirem as explicações dos responsáveis da Fundação. A cada passo testemunhos de um passado fundado no trabalho criador, na iniciativa empresarial patriótica, na produção de riqueza nem sempre bem repartida.

       A gestão autosustentada deste riquíssimo património, cheio de memórias vivas, promovendo o turismo cultural, até com adeptos além-fronteiras, é um exemplo para o caminho de recuperação económica regional e nacional.

         SINOPSE DE PROPOSTAS

       XII. Para além dos sítios arqueológicos já referidos, deverá ter-se em conta o Edifício-Caserna onde a GNR, ocupante militar durante 31 anos, esteve aboletada, devendo integrar o Núcleo Museológico da Resistência e da Luta.

       XIII. Também o edificio onde funcionou o Refeitório 3 deverá ser preservado, podendo no futuro albergar o Núcleo Museológico Industrial.

       XIV. O equipamento utilizado na extracção de óleos alimentares, ainda operacional, no âmbito do «campus» referido, deverá ser preservado como testemunho da actividade industrial.

F.  O BAIRRO DAS PALMEIRAS E A NOVA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DO BARREIRO

       NOTA BIOGRÁFICA

       O Bairro das Palmeiras foi desenvolvido a partir de um pequeno aglomerado operário pré-existente no início do século XX (constituído por famílias operárias e cortiçeiras), no local da antiga Quinta das Palmeiras, paredes meias com as novas fábricas da CUF de Alfredo da Silva.Os primeiros imigrantes,vindos sobretudo do Norte do País, procurando trabalho certo na indústria nascente, instalavam-se perto das Fábricas, quase dentro, no único local que ainda não era do patrão.Vieram também alentejanos e algarvios e nos pátios interiores, acanhados e lúgubres, multiplicaram-se as barracas de madeira e de folhas metálicas que vieram a gerar o epíteto de «Bairro da Folha», dentro do qual ainda se distinguia no lado Nascente  o «Bairro dos Ratinhos».

       EVOCAÇÃO DA MEMÓRIA

       OS FEIJÕES VERDES

       O Bairro da Folha cresceu paredes meias com o outro que o paternalismo patronal ía construindo com projecto próprio, mas cujo acesso era restrito com regras discriminatórias – o Bairro Operário da CUF.

       A história do Bairro das Palmeiras confunde-se com a História do Barreiro Operário e Industrial do século XX. Integra cenas de repressão fascista nos anos 30/40, com desfiles de legionários (mal) fardados,rusgas e detenções pela polícia política (PVDE/PIDE), que sufocavam o bairro tanto como os gases que o castigavam com frequência. É memorável a acção intrépida e corajosa do Zé da Guarda que amiúde tratava da saúde aos «feijões verdes», sendo por  represália agredido selvática e cobardemente no posto da GNR. Evocável é igualmente a memória dos gritos de raiva e de exasperação dos populares que em Maio de 1945, comemorando em manifestação no Alto do Seixalinho o fim da II Guerra Mundial e a derrota do nazi-fascismo, foram perseguidos pela cavalaria da GNR até à passagem superior da linha do Caminho de Ferro – a ponte do Bairro das Palmeiras. Os guardas queriam forçar os cavalos a subirem as escadas mas foram corridos à pedrada !

        CRÓNICA BREVE

ONDE A VIAGEM TERMINA

       Recomeçamos a nossa viagem inaugural e invertemos a marcha na última etapa que vai terminar na novel Estação Ferroviária do Barreiro/Lavradio.

       Felizmente o bom senso permitiu a preservação das casas caracteristicas de rés-do-chão da rua das Palmeiras, no bairro do mesmo nome.As casas típicas de um aglomerado de génese popular e operária, fronteiras à antiga linha do caminho de ferro, foram por decénios um ex-libris da vila operária para quem entrava no Barreiro pela via férrea.São hoje um pequeno luzeiro das memórias de um passado que desvenda os caminhos do trabalho explorado, da grande produção industrial socializada e da riqueza mal repartida, da injustiça social, mas também da luta por um futuro equânime, o único futuro possível para uma humanidade imperecível.

       O Roteiro das Memórias da Cidade Património Nacional de Arqueologia Industrial (proposta), culmina na grande interface recentemente inaugurada, por onde passa o Comboio de Alta Velocidade, continua a linha convencional que de Lisboa vai para o Sul e Sueste, de onde partem agora as composições da Linha do Sado e onde termina o Metro Sul do Tejo.

       A viagem de regresso ao futuro termina aqui !

       O paradigma do desenvolvimento do Barreiro no século XXI continua a passar pelo transporte ferroviário, com profundas raízes na memória da cidade e da região.

        SINOPSE DE PROPOSTAS

       XV. Independentemente da solução que vier a ser encontrada para o Bairro das Palmeiras, no âmbito do PU da Quimiparque , deverá ser preservada e recuperada a frente de casas  características da Rua das Palmeiras.

      XVI. Com a elaboração e implementação de uma verdadeira estratégia de preservação e recuperação dos sítios históricos referidos nesta comunicação (e noutras…), deverá ser lançada a candidatura – Barreiro, Cidade Património Nacional de Arqueologia Industrial.

 Barreiro, 10 de Março de 2011

Armando de Sousa Teixeira       

One Response to "OS COMBOIOS NO BARREIRO : UM LEGADO,UMA MEMÓRIA,UM FUTURO [IV]"

  1. BARRAGON  10/02/2012 at 13:40

    era o masterplan.
    era a cidade do cinema.
    era a nova ponte barreiro-chelas.
    era a nova estação central do barreiro.
    era a linha do tgv.
    tudo tretas e mentiras.
    cambada de vigaristas e ladrões.
    e o barreiro velho a cair de podre.

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