Moinho de Maré Pequeno Arrasado pela Câmara do Barreiro

No dia 13 de Junho de 2018 a Câmara Municipal do Barreiro arrasou o Moinho Pequeno.

A Associação Barreiro – Património,Memória e Futuro considera esta acção um crime, porque apaga a existência daquele que é, para a generalidade dos barreirenses, o exlibris dos moinhos de maré do Barreiro.

Na sequência deste acontecimento e de acordo com os direitos que são conferidos na Lei de Bases do nº 107/2001, de 8 de Setembro, nomeadamente no Art. 10º ( nº4 — As estruturas associativas de defesa do património cultural gozam do direito de participação, informação e acção popular, nos termos da presente lei, da lei que as regular e da lei geral e  Nº 5

— A Administração Pública e as estruturas associativas de defesa do património cultural colaborarão em planos e acções que respeitem à protecção e à valorização do património cultural), esta Associação decidiu solicitar à Câmara Municipal do Barreiro a realização de uma discussão pública sobre a obra que tem a intenção de realizar no espaço ocupado pelo Moinho Pequeno, agora completamente arrasado, bem como sobre todo o programa para a área classificada de Alburrica, Ponta do Mexilhoeiro e Quinta do Brammcamp, para tal já foi endereçado ao Presidente da Câmara Municipal do Barreiro pedido de reunião urgente.

Multiplas razões nos levam a reivindicar esta discussão pública, tais como:
1- O Moinho Pequeno está integrado numa zona classificada como Sítio de Interesse Municipal, do ponto de vista do Património Moageiro, Paisagístico e Ambiental, integrando Alburrica, a Ponta do Mexilhoeiro e a Quinta do Brammcamp, devendo, por isso mesmo, ter sido equacionada a intervenção no Moinho Pequeno no âmbito de um programa para a totalidade da área, a ser realizado faseadamente.

Este programa, a existir, deverá ser tornado público e colocado à discussão da população. Caso não exista, deve iniciar-se a sua elaboração e promover a participação de associações e da população na discussão do mesmo, tal como está expresso na legislação em vigor.

2- Este moinho de maré, depois dos moinhos de vento de Alburrica, era o mais emblemático e por isso o mais representado iconograficamente, e o mais presente na memória dos barreirenses, o que deveria ter merecido especial consideração. Também sempre foi considerado como o mais apto a receber um processo de requalificação correctamente concebido na área museológica moageira por se tratar do mais pequeno e com localização privilegiada na Cidade.

3- Quando se fala, hoje, em preservação, recuperação, reabilitação, novos usos, não se pode pensar que a memória, a história e no caso os processos de laboração de uma indústria moageira, tudo se pode apagar, até a arquitectura do edifício que lhes deu corpo. Nem tudo se pode reduzir a negócio, sobretudo quando o que está em causa é a nossa identidade, a compreensão das nossas diferenças e com elas a nossa afirmação. Sem passado não há futuro, é assim em todas as áreas do conhecimento humano, no património não pode ser diferente. E é no momento presente que tudo isto tem de ser equacionado com respeito democrático e uma valorização ponderada dos caminhos a seguir.

4- O Barreiro tem tudo para vir a ser um importante polo turístico e é no património que encontramos essa possibilidade. Um moínho recuperado, no seu essencial, será sempre um ponto de atracção turística; se o liquidarmos por completo, violando todas as regras que devem garantir uma correcta recuperação como está a acontecer com o Moinho Pequeno, está-se a liquidar uma importante via de desenvolvimento económico e cultural referida ao futuro do Concelho do Barreiro, o que deverá ser devidamente tomado em consideração no presente.

5- Não defendemos que todo o património tenha de ser recuperado integralmente do ponto de vista da arquitectura e do uso. No caso deste Sítio de Interesse Municipal isso seria um absurdo, porque temos 4 ruínas de moinhos de maré, mas, pelo menos um terá de ter essa finalidade. Seria mais fácil concretizá-lo no Moinho Pequeno pela sua dimensão, porque é o único com caldeira lajeada, porque é um edifício emblemático e com acesso imediato à cidade. Mais uma vez lamentamos que, antes de avançar com obras de destruição massiva, sem qualquer preocupação recuperadora visível, o Executivo da Câmara Municipal do Barreiro não tenha tentado colher a opinião desta Associação e da população na sua generalidade, tendo em conta a importância do que está em jogo. De facto, a acção já empreendida demonstra não só falta de ponderação e pura precipitação dentro da intenção de mudar o Barreiro em 4 anos, mas, mais gravemente ainda, total desprezo antidemocrático pela opinião da população.

6- Todo o progama para este sítio classificado tem de ser realizado com a sensibilidade necessária para articular sustentadamente as valências túristicas com o património, o ambiente e a paisagem, e com as potenciais mais valias de carácter económico que dele podem resultar, se devidamente respeitados os prinçipios de uma autêntica recuperação. De outra forma, é evidente que se está a promover a destruição de uma zona que é única no País na sua configuração, deversidade e riqueza patrimonial.

A Associação Barreiro – Património, Memória e Futuro espera que estas razões sejam compreendidas e que ainda se possa abrir um processo de discussão, ampla, participada e democrática, sobre o assunto, única forma de ajudar a encontrar caminhos mais rasgados de visão do património, e do seu contributo para o desenvolvimento sustentado da nossa terra.

Associação Barreiro – Património, Memória e Futuro
Barreiro,18/06/2018

Leave a Reply

Your email address will not be published.