AS “DITAS” E AS FESTAS

 

Após longo cavaquear
Sobre a “crise” consumada
Foi facílimo chegar
À mudança antecipada.

 

 

E tal como em 33:

Venha a festa, venha o verão,
Venham férias e festança
Que com tanta distração
As “DITAS” de contenção
Quando postas na “balança”
No prato do SIM ou NÃO
Ainda que, com prudência
Nem S. Pedro ou S. João
Demovem, em consciência
Aqueles que dizem NÃO!

Mudou-se só para mudar
E manter o que está mal
Por isso há que lembrar
O que o “TRIO” ditou ao “TRIO”
De forma falada e escrita,
Com anuência e compadrio.
Mas como há  sempre “CONTRADITA”
Seja a DITA mole ou DURA
Estamos certos que contra a “DITA”
Esta luta continua
No Parlamento ou na RUA!

HÁ DIAS OUVI DIZER:

Não é “Tríade”, chamam-lhe “Troika”
Não confundam meus senhores,
Nem com casas de penhores
Onde se empenha a NAÇÂO.

Mas com custos superiores
Aos ganhos da produção,
Só nos resta uma saída ,,,
VAMOS MUDAR, COM RAZÃO!

ARFER

E AGORA O TEXTO QUE VENHO PUBLICANDO DESDE 2002.

FOLCLORE REINVENTADO, A SABER.
MARCHAS POPULARES OU INVENÇÃO DO FOLCLORE CITADINO

Todos os anos faço lembrar que:
As Festas Populares eram manifestações culturais que espelhavam a identidade de quem as produzia.
Os Arraiais eram comuns nas aldeias, vilas ou bairros da cidade, estavam associados ao SOLSTÍCIO de Verão, de origem Pagã. Era tradição queimar as coisas velhas, e daí a origem das fogueiras juninas.
Nos casos específicos dos bairros da cidade de LISBOA, as festividades populares não fogem à regra e têm, nas mais variadas representações, a sua identidade, no FADO, nas CEGADAS (representações teatrais de rua), nas rodas e cantares à volta da fogueira, 0nde, também, a simbologia do bairro estava presente.
A partir de fins do Sec. XVIII surge o culto do Santo António, que o Clero e o governo da cidade elegeram como patrono popular, passando S. Vicente a mero símbolo da cidade.
Apesar do contacto e interligação com outras culturas e outros hábitos, as “marcas” bairristas vão sendo representadas nas festas tradicionais da cidade onde o culto de Santo António prevaleceu. As marchas “ditas”populares que sucederam às marchas “Aux Flambeaux”, popularmente chamadas de “Fulambó”que percorriam as ruas do bairro e dos bairros adjacentes, em grandes filas, acompanhadas das bandas filarmónicas do bairro ou das designadas “troupes”( estas sim, as marcadamente de raiz popular).
Assim, as marchas populares, deixaram de o ser, ainda que aparentemente o sejam. A partir do Mês de Junho de 1932 passaram a ser um produto de folclore urbano, com obediência a regras e princípios, devidamente regulamentados e com a encenação adequada aos propósitos regimentais, como que um complemento da “CASA PORTUGUESA” de Raul Lino, é mais uma peça do puzle inserida no projecto de folclorização do Estado Novo Português.
É na sequência das comemorações do 28 de Maio, em 1932, que o “Notícias Ilustrado”no seu número especial sobre a efeméride, anuncia o 1º concurso das marchas. Um espectáculo capaz de mobilizar a atenção dos Lisboetas. No dia 12 de Junho de 1932 a sala do “Capitólio”enchia. Um êxito popular, segundo a imprensa da época.
O director do “Noticias Ilustrado”era, nem mais nem menos, José Leitão de Barros, também realizador de cinema, promotor cultural e muito ligado a ANTÓNIO FERRO o responsável pela política de PROPAGANDA do Regime, criador do Secretariado da Propaganda Nacional. A “ideia-proposta”de Leitão de Barros vai no sentido de satisfazer a vontade de Campos Figueira, director do Parque Mayer, no sentido de criar em Junho desse ano (1932) um espectáculo capaz de mobilizar a atenção dos lisboetas, pensado, dito e feito, caiu como sopa no mel. Foram convidadas a participar as colectividades de cada bairro, sendo que a produção estaria a cargo do Parque Mayer .
A propaganda de promoção foi intensa e a mobilização popular aconteceu.
Este projecto, apresentado como que fazendo parte da tradição, era o ideal, numa altura em que bem mais importante que veicular ideias, importava, isso sim, distrair o POVO, em cumprimento da Cartilha Cultural de ANTÓNIO FERRO.
Pouco importará se as marchas que se apresentaram no palco do “Capitólio”, em 12 de Junho, foram as do Alto do Pina, de Campo de Ourique, Bairro Alto ou Alfama, o que conta foi o sucesso popular que teve e principalmente porque foi um veículo de apoio à propaganda do regime Salazarista.
O concurso das marchas populares regressou, em força, no ano de 1934, concorreram então 12 Bairros. O Município de Lisboa chamou a si a organização e integrou-as no que designou por Festas da Cidade.
Se em 1934 as marchas celebraram o 10 de Junho (como Dia da Raça); em 1940 assinalaram os Descobrimentos Portugueses; de 1941 a 1946 não desfilaram, foi o tempo da 2ª Guerra Mundial; em 1947 comemorou-se a conquista de Lisboa aos Mouros por D. Afonso Henriques e em 1973 o tema foi o Grande Desfile Popular do Mundo Lusíada.
A cidade acabou por se apropriar das marchas como símbolo de uma identidade perdida, entre o rural (Ex. m. de Benfica) mas quanto à celebração das festas e dos santos populares constitui uma novidade, acabando até por potenciar a tradição dos arraiais e dos bailes populares.
As CEGADAS, essas, foram politicamente extintas e a representação transferida para os palcos, onde o controle da censura era mais eficaz.
Desta forma, tento fazer lembrar que as “Marchas (ditas) Populares”foram uma encenação criada com objectivos concretos, tal como muito do folclore rural que foi criado (a partir dos anos 30) e que hoje representam um espectáculo que, conjuntamente com outros, fazem parte do programa das festas da cidade. Não são uma tradição cultural, mas um espectáculo em que através de simbologia própria manifesta o propósito de nos mostrar algo que tem ou teve a ver com o Bairro que representam.

ARFER

One Response to "AS “DITAS” E AS FESTAS"

  1. A. Fernandes  06/15/2011 at 16:43

    “Face a um comentário inserto no diário digital “ROSTOS”, deixo aqui um esclarecimento, quanto ao Arq. Raul Lino, ainda que este não seja o centro do tema.
    Ainda que o Arq. Raul Lino, não seja a figura trabalhada neste texto, achei por bem comentar o seu comentário.
    Se é certo que deu um importante contributo para uma Arte Nove portuguesa, o nacionalismo foi uma vertente dominante na sua obra, que inclui o paradigma do modelo da dita “Casa Portuguesa”-
    Se a ideologia fascizante foi “suavemente” enganando um povo (na sua maioria analfabeto, como covinha ao próprio regime), as brandas formas da “Casa Portuguesa” fizeram parte do processo de moralização de consciências e se desmultiplicou em casinhas por todo o país, sendo transmitidas essas imagens nos cartazes de propaganda.
    É certo que o excelente arquitecto RAUL LINO não se mostrou, alguma vez , incomodado com essa colagem, até quando em 1949 foi nomeado Director dos Monumentos Nacionais, por Sua Exa. o prof. Dr. Oliveira Salazar.

    Podia ter-me referido ao grande arquitecto CASSIANO BRANCO, que teve grandes projectos, a maioria dos quais foram rejeitados (por megalómanos,segundo o regime) e nada teve a ver com a “CASA PORTUGUESA CONCERTEZA”, por isso não o fiz.
    Cumprimentos
    ARFER

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