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DATA DE 1736 A FESTIVIDADE A NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DO BARREIRO

“Muitos anos antes de 1736, os devotos de Nossa Senhora do Rosário, moradores em Lisboa, estabeleceram nesta cidade um Congresso ou Con­fraria dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário, com a obrigação de irem, anualmente, no mês de Outubro, festejá-la, em forma de Círio, à Ermida do Rosarinho ou do Rosairinho, então situada no concelho de Aldeia Galega do Ribatejo, o que durante largo tempo cumpriram.”

“Refere um tradição que, certo ano, no dia da festa, e apesar de a ventania açoitar as águas do Tejo, o Círio largou de Lisboa, transpor­tando num escaler a pequena imagem da Santa, com rumo àquela Ermida, mas a meio do rio, os romeiros viram que era impossível chegar lá, sem Brande perigo de naufrágio.

A corrente, muito forte junto dos molhes da capital, também não permitia que voltassem com segurança ao ponto da partida.

Com muita dificuldade, o escaler foi vogando pela margem sul do rio, até que se aproximou da praia do Barreiro, resolvendo então os tripulantes aproar a esta vila, no sítio onde mais tarde se construiu um cais, denominado Cais do Rosário. Tendo então o Círio, já livre de iminente catástrofe, desembarcado nesta vila, foi aqui tão alegre e jubilosamente recebido, que os romeiros prometeram interessar-se por que a sua festividade se realizasse, de futuro, na Ermida onde fora recolhida :. imagem.

 

A respeito da fundação e origem da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro e, portanto, das suas anuais festividades religiosas e populares, possuímos uma interessante notícia do mesário secretário da Irmandade, Miguel Inácio de Medeiros, publicada em l de Março de 1859 e que diz o seguinte: «Sobrevindo-lhes (aos devotos da Confraria de Lisboa) alguns inconvenientes que lhes embaraçavam a continuação da dita festi­vidade, resolveram os ditos Devotos fazerem celebrar a referida festividade em unia das Igrejas da parte do Sul, que estivesse pró­xima desta cidade de Lisboa. Constando desta resolução na Vila do Barreiro em 1736, os Irmãos da Irmandade de S. Pedro da mesma Vila, que estavam de posse da Ermida de S. Roque, por não existirem já Irmãos da Irmandade deste Santo (Ermida que existia no reinado de El-Rei o Senhor Dom João 5.°) se ajustaram os ditos De­votos Escravos de Nossa Senhora a entre­garem-lhes a referida Ermida, os quais a aceitaram e de cuja entrega se lavrou escri­tura publica em 26 de Agosto de 1736. entre os referidos Devotos Escravos, e Irmãos de São Pedro, nas notas do Tabelião da mesma Vila António Álvares da Veiga (…).»
O Escudo da Real Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro

 

Mas nessa velha Ermida de S. Roque, mais tarde designada Ermida de S. Pedro, quando dela tomaram conta os devotos desta Irmandade totalmente constituída de pescadores e outros marítimos, esteve ainda esta associação de fiéis muito tempo instalada, pois ela contribuiu, com a dos Escravos de N.*- Senhora do Rosário, em 1757, para a reedificação e a ampliação desse pequeno templo, resolução esta tomada em face de ele ter sofrido «ruína grande e grave*, pelo terramoto de 1755.

Segundo Inácio de Medeiros, logo em 1736 se colocou naquela pequena ermida do lado poente do Barreiro, a venerável imagem de N/1 Senhora do Rosário, que tão conhecida e estimada se foi tornando em todo o País, em muitos pontos do estrangeiro e especialmente no Brasil, donde vieram, por diferentes épocas, importantes esmolas para o seu culto.

Para devida instalação dos romeiros durante os dias da festividade a Nossa Senhora, a Irmandade comprou em 1739, por escritura feita em Lisboa, nas notas do tabelião Pedro Aureliano da Fonseca — segundo o Livro 1.° dos Termos da dita Irmandade — «uma propriedade de casas a Francisco Gomes de Mattos e sua mulher Thereza de Jesus, as quaes constarão de trez lojas e trez sobrados, com um quintal e poço, confrontando do Norte, Nascente e Sul com ruas publicas, e Poente com chão de órfãos de José da Costa Feio, por 129$600 réis. A l de Agosto de 1746, comprou ainda a mesma Irmandade um outro terreno « e metade de um poço», ao lado da propriedade anterior, arrematados em hasta pública, que haviam ficado a uma órfã, filha de José da Costa Feio, por 5$900 réis, «confrontando a Norte com a Rua Publica de Palhaes (a actual Rua do Conselheiro J. A. Aguiar) e a Sul com a Rua Publica de trás dos Quintaes (a primitiva designação da actual Rua do Conselheiro Serra e Moura).» Nestas propriedades se instalaram em seguida as chamadas Casas das Hospedarias, beneficiadas e ampliadas no decorrer dos anos, sendo umas designadas hospedarias novas e outras antigas, (Essas casas, integradas no quarteirão à rectaguarda da Igreja e a uma escassa centena de metros desta, conservam ainda o seu antigo aspecto).

Após a importante transformação da ermida a seguir ao terramoto, ficou ela a denominar-se Igreja dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro.

Por provisão do Desembargo do Paço de l de Junho de 1781 e con­forme resolução de D. Maria I, foram aprovados os Estatutos desta Irmandade, a qual, pela especial devoção da soberana a N.ª Senhora do Rosário desta vila, passou a usar o título de Real, tornando-se ela a 1.” Juíza Protectora Perpétua, cargo que sempre continuou em todos os reis que lhe sucederam.

Em 20 de Agosto do mesmo ano (1781), elegeram-se os Irmãos para servirem os cargos da Mesa, determinando-se então que o dia fixo da festividade de Nossa Senhora fosse anualmente o 1.° domingo de Setem­bro, a fim de os Irmãos e devotos gosarem de certas graças e indulgências que Sua Santidade Pio VI concedera, por Breves Apostólicos daquele ano, a todas as pessoas que visitassem a Igreja de Nossa Senhora no dia da . festa.

Pouco mais ou menos por esta época, um caso pouco vulgar influiu decisivamente na longa e brilhante história desta Irmandade. Estando D. Maria I enferma, mostrou a soberana desejo de que a imagem de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro fosse levada temporariamente para a do Paço. Mas o povo desta vila, temendo que a imagem nunca mais de lá voltasse, manifestou-se contra a vontade da rainha, e não foi sem sérios embaraços que se conseguiram cumprir os desejos da Piedosa soberana.

Parece que, como reflexo deste caso, mas alegando-se que, por resi­direm fora de Lisboa, sede da Irmandade, não podiam alguns dos seus membros, dar a necessária assiduidade às sessões, o assunto foi levado à Junta de Definição do Paço, a qual, em 30 de Julho de 1783, determinou o seguinte:

«Visto a Irmandade ser instituída por devotos de Nossa Senhora, moradores na cidade de Lisboa, onde a Mesa se reúne para tratar dos negócios da Irmandade, não podem em tempo algum ser admitidos nos cargos da Mesa os Irmãos Escravos que não forem moradores na dita Cidade, etc.»

Esta determinação que, como se afirmou, salvou a Irmandade do Rosário de morte inglória, como tiveram as outras antigas Irmandades desta vila, observou-se com todo o rigor até cerca de 1940, com um ou outro barreirense ou descendente de barreirenses (mas residente em Lisboa), nos lugares de Mesários, inclusivamente no de Juiz.

Note-se, contudo, que a suposta má vontade de D. Maria I contra os habitantes do Barreiro, nunca influiu na sua grande devoção à imagem de N.a Senhora do Rosário desta vila, pois foram muitos e vastos os au­xílios que mandou conceder à sua igreja, em honra e louvor de Nossa Senhora, «o que se prova (como ainda em 1934 referia J. A. Pimenta, mesário da Irmandade) pelas frequentes e valiosas ofertas de que tor­nava alvo essa tão sua querida Imagem, tais como ricos paramentos para a sua Igreja, vestidos e mantos para Nossa Senhora, do mais fino damasco e seda, uns bordados a matiz, outros tecidos e bordados com fio de ouro e prata; um magnífico rosário de contas de ouro maciças; um riquíssimo véu de tamanho descomunal do mais fino rendado, delicadamente bordado a ouro; o esplêndido órgão de grandes dimensões e excelentes vozes, com trinta e quatro registos, que ainda hoje se admira no coro da Igreja; várias outras alfaias e jóias adornadas de pedras preciosas, etc., etc.»

Em 1791, este templo sofreu novos e importantes melhoramentos. Eram em grande número os devotos que acorriam às festividades, e nessa altura foi determinado que estas mudassem para os dias 13 a 17 de Agosto de cada ano, o que, com pouca diferença, tem sido desde então observado.

Reprodução do programa das festas do Barreiro, em honra de N.ª Senhora do Rosário, em 1859

Segundo o «Livro em que assígnam por Escravos de Nossa Senhora do Rozario do Barreiro as Pessoas Reais—-Ano de 1892», existente na Biblioteca da Ajuda, foi a 9 de Março de 1792 que, no Paço Real da Praça do Comércio, se alistaram por Escravos de Nossa Senhora, o Príncipe e a Princesa do Brasil, D. João e D. Carlota Joaquina, tomando a Irman­dade debaixo da sua real protecção. A 26 de Maio de 1822, também se alistaram nessa qualidade, a Princesa D. Maria e as Infantas D. Maria Ana, D. Isabel Maria, D. Maria da Assunção e D. Ana. A 12 de Agosto de 1828, coube a vez ao rei D. Miguel de se alistar por Escravo de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro. Era secretário da Irmandade Francisco Justino da Costa Guimarães.

Até 1844, a pequena imagem do círio saía processionalmente da cidade de Lisboa, da Igreja de S. Do­mingos ; passou depois a sair da Igreja da Madalena, havendo notícia de que em 1881 foi a última vez que, com toda a antiga soleni­dade, saiu daquela igreja para o Barreiro, no dia 14 de Agosto. Era então acom­panhada por um sacerdote, membros da Irmandade e uma banda de música, em­barcando no Cais da Praça do Comércio, numa galeota da Casa Real, tripulada pelos algarves, remadores ao serviço do Paço, envergando o trajo dos dias de gala: jalecos escarlates, calças brancas e gorros com chapa de prata. Acompanhada, na travessia, de outras embarcações, a galeota acostou ao antigo cais da Quinta Braamcamp, onde a Imagem era aguardada por outro cortejo religioso, de Cruz alçada, acompanhado de muito povo. Ordenado o préstito, por entre preces balbuciadas com fervor, dali seguiu para a igreja, onde à sua entrada se entoou uma ladainha por música. Decorridas nesse dia e nos seguintes todas as cerimónias do culto interno e externo, retirou o círio para Lisboa, no último dia das festividades, pela mesma forma com que de lá partira.

O «registo» de Nª Senhora do Rosário impresso num diploma de membro da Real Irmandadedo Séc. XIX

Um aspecto, nos fins do Séc. XIX, da Igreja, de N.” Senhora do Rosário e de uma parte do largo do mesmo nome, onde decorrem os festejos populares em honra da Padroeira do Barreiro. A torre inacabada, do lado sul, foi, em 1957, completada, ficando igual à do lado norte, conhecida por torre do relógio

Em 1896, o círio saía já da Igreja de N.ª Senhora dos Remédios; em 1905, já com o cerimonial muito simplificado, sabemos que saiu da Igreja de S. Julião (mais tarde encerrada ao culto), tendo sido deste templo que veio o círio ao Barreiro, pela última vez, no antigo regime.

Nesses derradeiros anos da Monarquia, as festividades continuaram, porém, a realizar-se, com muita devoção religiosa, mas já salpicadas de um ou outro acto de menos respeito ao culto externo. Era grande a animação dos festejos populares, a que os vistosos arraiais, ornamentados com bandeiras, festões de flores artificiais e verduras, com iluminações à veneziana e a acetilene, emprestavam uma moldura garrida e atraente. Abrilhantavam-nos bandas de música regimentais que o povo do Barreiro — bom apreciador e cultivador da divina arte de Euterpe — recebia sempre com muito interesse e alegria. Por exemplo, nas festividades de 1907, vieram aqui as bandas de música de Infantaria l e Infantaria 16, de Lisboa; de 1908, as de Infantaria 17, de Beja e de Caçadores 5, de Lisboa; de 1909, as de Caçadores 2, de Lisboa e de Infantaria 11, de Setúbal; e de 1910, as de Infantaria 14, de Tavira, e de Caçadores 2, já citada. As bandas regimentais de mais longe demoravam no Barreiro dois e três dias, com elas alternando as bandas civis desta vila e dos arredores.

Um aspecto do arraial em honra de N.” Senhora do Rosário do Barreiro, em 1907. Nesse ano, as ornamentações do largo em frente da igreja foram das mais vistosas que se montaram. Nas entradas do arraial, na Rua Miguel Pais e na Rua do Conselheiro Joaquim António de Aguiar, foram armados portões em cenografia, que produziam excelente efeito. Numa parte do recinto circulava um comboio (locomotiva e carruagens em miniatura) sobre uma linha férrea de via reduzida, com, cerca de 200 metros de comprimento, custando cada viagem 20 réis por pessoa. Fizera-o Manuel Gualdino da Silva (1865-1914), um hábil serralheiro barreirense, que o inaugurara nas festas de 1906, com o auxílio financeiro de D. Rafael Reynolds, revertendo a receita desta diversão para a comissão dos festejos.

Precisamente nesse ano de 1910, as festas tiveram uma concorrência extraordinária, saindo a tradicional procissão com os seguintes andores: N.ª Senhora do Rosário, N.ª Senhora da Saúde, Santa Margarida, S. Francisco de Assis, Menino Jesus, S. Roque, Santo António e S. Pedro, terminando as festas profanas por animadíssimas cavalhadas no recinto do arraial.

Depois da separação da Igreja do Estado, a crise financeira que a Irmandade vinha atravessando há anos, por irem escasseando as esmolas, incluídas as que recebia do Brasil, impedindo a efectivação de algumas obras de que a igreja necessitava (o que tornou inevitável a alienação de alguns valores para acudir às mais inadiáveis), — agravou-se acentuadamente em face de uma certa massa de indivíduos chegar a considerar a Igreja Católica incompatível com a República, defrontando a Irmandade atritos e dificuldades sérias para sobreviver, que, no entanto, venceu (no que teve grande influência o facto de manter a sua sede em Lisboa), podendo conservar a Igreja de N.ª Senhora do Rosário, do Barreiro, sempre aberta ao culto, mesmo quando todas as outras deste concelho foram profanadas e encerradas.

Decorreu o tempo. Serenaram mais os espíritos. Recuperaram o ânimo muitos devotos mais tímidos, até que vinte anos depois — em 1930 (de 15 a 18 de Agosto) —voltaram a efectuar-se as festividades assinaladas com os actos litúrgicos na igreja e a realização da procissão do triunfo, com o aplauso da grande maioria do povo do Barreiro.”

Texto extraído do Livro:

O Barreiro Antigo e Moderno

De: Amando Da Silva Pais

 


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