OS COMBOIOS NO BARREIRO: UM LEGADO, UMA MEMÓRIA, UM FUTURO

  INTRODUÇÃO

O apito da locomotiva a vapor traz o vento e a chuva quente, cortando o frio Inverno de Leste que açoita a vila velha do lado das Fábricas. O som ergue-se estridente sobre o silêncio ensurdecedor da vila a Norte, embalada na noite longa da laboração contínua.

   O traço descontinuo das linhas do Caminho de Ferro a Sul, une o esforço transformador do Trabalho nas margens do Tejo conquistado, e do Homem da cidade nova em demanda de um futuro equânime.

 OLHAR PARA O FUTURO

   Com a responsabilidade e contribuição dos Construtores da nova Ligação de Alta Velocidade, da RAVE, da CP, da REFER, da Câmara Municipal do Barreiro, dos empreendedores na área consignada, da Fundação do Museu Nacional Ferroviário, dos Amigos do Caminho de Ferro, do Ministério da Cultura e do Instituto do Património, das Estruturas Associativas preocupadas, das Estruturas dos Trabalhadores sensibilizadas, dos cidadãos interessados, até de alguma Estrutura Supranacional correlacionada, imaginemos daqui a alguns anos, com os nossos filhos e netos, a concretização de uma viagem histórico-turística, pelo nosso Roteiro das Memórias, recuperado, organizado e gerido de forma auto sustentada, pela Fundação para o Património Arqueológico Industrial do Barreiro, com o apoio do Núcleo Associativo dos Antigos Ferroviários.

   Durante a viagem, transcendendo as leis do Tempo e da Física, vamos recordando acontecimentos que marcaram a História do Barreiro ferroviário e resistente.

   O comboio apita na velha gare, a viagem inaugural vai começar !…

 

A. A ESTAÇÃO FERRO FLUVIAL ANTIGA

NOTA BIOGRÁFICA

         A estação ferro fluvial do Barreiro-Mar, foi inaugurada em 20/12/ 1884,quando ficaram concluídas as obras do novo aterro-terminal da futura Av. de Sapadores, que permitiram juntar comboios e barcos numa mesma interface. O projecto e a direcção da execução estiveram a cargo do engenheiro militar Miguel Paes.

          EVOCAÇÃO DA MEMÓRIA

          NINGUÉM EMBARCA !

         Um coro magnifico de protestos sublinha a chegada do capitão da GNR, à frente de um grupo numeroso de guardas armados de espingarda, despejados dos jipes que entraram arrogantes gare adentro, até perto da multidão aglomerada junto ao portão, agitada com a palavra de ordem: «Ninguém embarca no cacilheiro!».

         Naqueles princípios da década de 70, a CP acabara de aumentar o custo das passagens para Lisboa, e, devido a uma avaria no «Estremadura», a carreira das oito horas estava a ser feita por um velho «ferry-boat», sem o mínimo de condições.

         O Saramago dera o mote. Mais de três centenas de «habituées» naquela hora de ponta, vaiam os «gnr’s» em preceitos de guerra e apupam as ordens exaltadas do capitão Crispim: «Quem não embarcar é detido para identificação!».

          A voz da coragem insiste travando os mais timoratos: «Ninguém embarca! Ninguém embarca!»

          «Arreia ! Arreia ! -grita o oficial da Guarda, furibundo.

          CRÓNICA BREVE

          ONDE A VIAGEM COMEÇA…

          Àquela hora da manhã clara de Primavera, o cheiro intenso a maresia da preia-mar, reflectindo os raios luminosos do Sol banhando a Alburrica resplandecente, inebria as dezenas de visitantes, muitas crianças e jovens, pouco habituados àquela paisagem do Tejo magnifico a libertar-se das últimas neblinas matinais.

           No silêncio quebrado da estação desactivada, o grito perene das gaivotas em voos travessos, traz-nos à memória o ressoar longínquo dos passos azafamados que durante decénios demandaram a capital em busca do ganha-pão, da instrução ou da cultura, ou em caminhos da luta pela liberdade rigorosamente vigiada.

           A viagem vai começar!…

          SINOPSE DE PROPOSTAS PARA O FUTURO

          I. Criação da Fundação para o Património Arqueológico Industrial do Barreiro, preservadora e gestora de todo o património histórico, incluindo o ferroviário, de forma auto sustentada. Organizadora de iniciativas e eventos como as visitas turístico – culturais em comboio diesel, aos sítios históricos incluídos no Roteiro das Memórias e aqui identificados.

           II. A Estação Ferro Fluvial de Miguel Paes, preservada segundo a traça tradicional, será utilizada para a instalação do Núcleo Museológico  Fluvial do Barreiro, sendo de admitir outras valências complementares (Centro de Interpretação,  Centro de Investigação ligado ao Tejo, entre outras)

         III. No desenvolvimento da nova avenida longitudinal Nascente -Poente, prevista no PU/Quimiparque ( Avenida dos Caminhos de Ferro, propomos ), será recuperada uma linha ferroviária de bitola normal, que permita efectuar viagens de características  culturais, partindo da Estação, passando pelas Oficinas, Rotunda, etc.

   

B. AS OFICINAS-GARE DOS CAMINHOS DE FERRO DO SUL E SUESTE

NOTA BIOGRÁFICA

A gare inicial da Linha do Sul e Sueste, estava pronta quando da visita/inauguração do rei D. Pedro V, em 1859. A passagem às «magnificas» Oficinas dos Caminhos de Ferro, como referiu José Augusto Pimenta na Monografia do Barreiro, deu-se quando em 1884, a estação passou para o terminal ferro fluvial. As grandes oficinas, onde trabalharam gerações de ferroviários barreirenses, foram reformuladas como Novas Oficinas Gerais do Caminho de Ferro do Sul e Sueste a partir de Junho de 1933.

       EVOCAÇÃO HISTÓRICA

      O DESCONTENTAMENTO CRESCENTE

      O descontentamento crescente dos ferroviários portugueses, na razão directa da falta de resolução dos seus agravados problemas,  acentuou-se com a assinatura da Revisão do Acordo de Trabalho para o Sector,  em 1961,imposto pelo governo de Salazar. Muito aquém das expectativas, sem progresso pecuniário, constituiu a última gota a fazer «transbordar o vaso ».

       Manhã cedo, naquele Inverno rigoroso,  a palavra de ordem corre célere pela grande oficina :«Ninguém pega no trabalho!».

       Os mais decididos percorrem os vários sectores com a mensagem de luta quase espontânea. Os contra – mestres confundidos, começam um vai -vem agitado ao gabinete do engenheiro – chefe, voltando com ameaças crescentes:

       –  Quem parar o trabalho vai para a rua!

       Os mais timoratos encolhem-se pelos cantos, a fingir que não estão a participar. Perante centenas de rostos expectantes, Ricardo Vale e Carlos Lobato, saltam para cima de uma bancada:

       – Ninguém pega no trabalho! – reafirma o primeiro de sobrolho carregado.

       –  Têm de explicar porque não fomos aumentados! – Lobato era uma voz muito respeitada.

       –  Vamos ao gabinete do director! – propõe alguém da plateia decidida.

       –  Bora!

       Centenas de operários ferroviários juntaram-se à porta do chefe regional até vir a promessa de que seriam recebidos no Rossio pela administração.  

       CRÓNICA BREVE

       O TRABALHO CRIADOR

       Na ampla nave ressoam  os sons metálicos de ferramentas em percussão sincopada, somando-se ao zumbido característico dos equipamentos rotativos, numa sintonia que o compositor Luigi Nono captou em vários sítios do mundo do trabalho organizado, como estas magnificas oficinas parcialmente conservadas depois do encerramento, tornando esses sons universais nas suas sinfonias glorificando a produção humana.

       Manobrados por mãos diligentes de ex – ferroviários do Núcleo Associativo, que não esqueceram as aprendizagens de uma vida de trabalho, alguns equipamentos recuperados voltam a funcionar, rodeados dos visitantes curiosos: «Estas oficinas funcionaram durante mais de 100 anos!»- conta um velho operário com um sorriso breve que logo uma sombra desfaz : « Pena que tenham fechado!…».

       4. SINOPSE DE PROPOSTAS PARA O FUTURO

       IV. Dinamização do Núcleo Associativo de Antigos Ferroviários do Barreiro, apoiado pela Fundação, com sede no antigo Armazém Regional recuperado.

       V. As Oficinas do Caminho de Ferro do Sul e Sueste, serão conservadas como um Núcleo Museológico, com equipamentos fundamentais do seu espólio, alguns em condições de funcionamento para demonstrações ao vivo.

       VI. A primitiva gare da estação inaugurada em 1859, ficou diluída na ampliação das oficinas. Todavia o lado Sul é recuperável para a recepção de visitantes em viagem na linha conservada ao longo da Avenida dos Caminhos de Ferro, como se propõe a denominação.

Texto: Armando Sousa Teixeira

fotografias: José Encarnação

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