Barreiro
Roteiro das Memórias. Lançamento do livro. 28 Junho 09. 16 Horas.
Todas as iniciativas que conduzam
à escrita e divulgação de textos sobre a luta política de um determinado período
histórico – sobretudo o que corresponde ao tempo que durou a ditadura fascista –
são meritórias, tanto mais que é grande a pressão para esbater e, mesmo, apagar
a própria existência do fascismo e seus crimes.
Ouvir protagonistas ainda vivos e
consultar documentação da época, muita dela clandestina, é indispensável. A
consulta de jornais e de autos ou relatos da polícia, são úteis para a
determinação temporal dos acontecimentos, mas deformam-lhe o conteúdo. No caso
da polícia, lendo os autos, não se obtém qualquer informação sobre as torturas
infligidas aos lutadores pela liberdade e pela democracia.
Sobre
as lutas no Barreiro, Armando Teixeira tem desenvolvido um persistente trabalho
de divulgação já com uma apreciável bibliografia, a que acrescenta o livro que
hoje é lançado, em que procura sistematizar muito do que se encontra disperso
nos livros anteriores.
A minha participação neste
evento, expresso-a sob a forma de testemunho pessoal de alguns acontecimentos de
que Armando Teixeira trata neste seu livro ou são deles contemporâneos.
Nesse período histórico, o ambiente social que rodeia grande parte dos jovens
operários do Barreiro é de enormes carências, mesmo de miséria extrema, em que
permanentemente nos perguntamos: por quê, tanta falta de horizontes? Qual a
saída? O que é que se pode fazer para alterar este estado de coisas? Sentíamos
que era preciso agir, o que leva muitos de nós a dar os primeiros passos na luta
contra o fascismo, como uma janela que se nos abria, no seio do MUD Juvenil, por
volta de 1955: são passeios-convívio – como, aconteceu, a Alpiarça, em 11 de
Novembro de 1956, em que participam mais de cento e cinquenta jovens; são
piqueniques – no vale dos Casquilhos, em Palhais, na Mata dos Lóios; ou é a
distribuição de panfletos e a colagem de cartazes – pela libertação de Agostinho
Neto, por exemplo.
Nos passeios-convívio, nos encontros, pelo caminho ou pela estrada, montes de
jovens entoam as Heróicas - Não fiques para trás ó companheiro, que é de aço
esta fúria que nos leva…Ou: Quem te pôs na orelha essas cerejas pastor, são de
cor vermelha vai pintá-las de outra cor…Ou: Vozes ao alto, vozes ao alto, unidos
como os dedos da mão…Ou: Canta camarada canta, canta que ninguém te afronta…
No convívio de Alpiarça, a PIDE prende António Espírito Santo e Manuel da
Luz, dois meses depois, a 17 de Janeiro de 1957, de madrugada, somos presos, em
casa, no B. N. CUF e, em 8 de Março de 1958, a assinalar o dia da Mulher, são
presos dezenas de jovens. Do conjunto, a 13 de Maio de 1858 – acusados de
pertencermos ao MUD Juvenil – 4 viriam a ser condenados: 1, o António Espírito
Santo, 21 anos, com pena suspensa e 3, com penas efectivas – Armando da Cunha
Santos, 25 anos, a 5 anos; Lenine Maria Sobreiro, 24 anos, a 4 anos e 10 meses;
Alfredo Rodrigues de Matos, 23 anos, a 4 anos e meio.
Alguns episódios, nas cadeias:
Natal de 1960. As lutas por condições prisionais capazes multiplicam-se.
Assassinos! Quero ver o meu marido! – É a Tina, mulher de Lenine, secundada por
todos, a maioria mulheres e crianças, impedidos de ver os seus familiares e
afastados à força das imediações da cadeia. Dezenas de soldados da GNR empurram
a multidão, até à estrada do Jamor. Vitória, aos gritos: – quero ver o meu
Jorge! – E nomes de outros presos soam. Naquele Natal, as visitas, em comum, são
proibidas – reflexo da audaciosa fuga de Peniche havia dias? As famílias, frente
ao portão da fortaleza, preparam-se para entrar. Surpreendidas, reagem,
indignadas. No Forte, a uma só voz, os presos gritam: – bandidos! Queremos
visitas! E batemos nas grades. Os carcereiros irrompem, sala dentro, de
cassetetes em punho. – Que é isto? Estão loucos? Nem pensem em nos agredir –
palavras dos presos da sala 8. – Vamos agir com firmeza, mas sem violência –
segreda, Aboim. Lenine, voz rouca, esbraceja e grita a plenos pulmões: – vá! Lá
para fora! – Seguido por Jorge, Chambel, Alfredo, Abrantes, Gregório, Aboim,
Magro, Rolim, Miguel, todos! Os carcereiros ameaçam. Os presos esforçam-se por
sustê-los e insistem, tentando mostrar serenidade. – Vá! Lá para fora! Os dias
seguintes são de grande tensão. Mas os presos, bem organizados em todo o Forte,
iriam desencadear uma luta invulgar.
Princípio de Janeiro de 1961. Com o ambiente prisional ao rubro, eliminadas
as visitas em comum, no Forte de Caxias, a paz aparente acaba. Os presos,
fortemente organizados, sob a direcção de um núcleo restrito, coordenado por
José Magro, utilizam impensáveis formas de comunicação. Papel de seda, letra
miudinha, cascas de caracóis, caricas, vagens secas, goma de miolo de pão, pelo
recreio, posto-médico e pelas famílias, em bainhas, pacotes de leite… E as
mensagens circulam. Os castigos sucedem-se. Os protestos sobem de tom.
Quatrocentos presos agem unidos, como se estivéssemos todos numa mesma sala.
Naquela 2ªfeira, fria, de Janeiro, nenhum preso aceita o café! Para os
carcereiros, seria um simples levantamento de rancho. Tudo ficaria por aí.
Engano. Na 3ª, recebemos o café e o almoço mas recusamos o jantar. Na 4ª,
tomamos o café, recusamos o almoço, mas aceitamos o jantar. Os carcereiros estão
desorientados. Algo de inconcebível iria acontecer. Na 5ª feira, os carcereiros
fornecem o café, mas recusam servir o almoço! Perante tal procedimento,
completamente doido, a reacção dos presos foi imediata. Gritamos, batemos nas
portas, nas paredes e nas grades, durante largo tempo. – Querem matar-nos à
fome! Criminosos! E vá de gritar, de bater nas grades, com tudo o que há:
colheres, copos, ferros das camas. Embora isolados, naquele ermo, o barulho ecoa
bem longe. O Forte fervilha. Continuamos a bater nas portas e nas grades,
descansando uns, buscando novas energias, intervindo, outros. – Exigimos a
presença do chefe dos guardas! Queremos ser ouvidos! No dia seguinte, 6ª feira,
o sistema recua. Voltam a servir refeições. Mas a vingança da PIDE iria mais
longe…
Final de Janeiro de 1961. O caldeirão do Forte de Caxias como que arrefece.
São reatados os recreios. Naquela meia hora, os presos exibem o orgulho dos
vitoriosos e, ao cair da noite, entoamos, em surdina, o Hino de Caxias: “Longos
Corredores de trevas percorremos, sob o olhar feroz dos carcereiros, mas nem a
luz dos olhos que perdemos, nos faz perder a fé nos companheiros”… Os
carcereiros espelham a raiva da derrota, mas já se pressentia conter aquela
expressão popular: “esperem que não perdem pela demora”. E não tardou, atingindo
os presos no que lhes é mais penoso: quebrar a unidade entre si, dificultar a
solidariedade do exterior, desterrando-os para longe das famílias. – Preparem-se
para, amanhã, muito cedo, abandonarem a cadeia. - É assim que os carcereiros
avisam, um a um, quarenta dos quatrocentos presos e, alta madrugada, somos
metidos em dois carros celulares, vinte em cada. – Para onde nos levam? Manuel
Pedro diz, mesmo: – querem ver que nos levam para o Bié, ou reabrem o Tarrafal?
Seguiram-se momentos de grande ansiedade, quando percorríamos a estrada nacional
1, em direcção ao Norte, sem saber o destino… Fomos desterrados para a cadeia da
PIDE no Porto, paredes meias com o Cemitério do Prado do Repouso e metidos em
duas casamatas, vinte presos em cada uma, onde permanecemos até ao fim desse
ano, em condições insalubres e com enormes variações de temperatura. Foi a
vingança mais pura sobre os presos, mas as lutas iriam continuar… Não se podia
admitir que o comer fosse tão intragável. Refeições assim, nunca! E fizemos um
levantamento de rancho. Foi um êxito: a comida até parecia vinda de messe de
oficiais. Que arroz tão gostoso. E os panados?
Voltemos ao Barreiro.
Dia
1º de Maio de 1970. Grande manifestação popular, a maior de sempre, com a
participação de milhares de pessoas – na altura falou-se em 10 mil – vindas do
Barreiro e da Moita, convergindo para a concentração, combinada, no largo frente
ao cemitério do Lavradio. Um mar de gente. Viva o 1º de Maio, viva a Democracia,
abaixo o fascismo e gritos contra a guerra colonial e pela liberdade, quando
intervém a GNR a pé e a cavalo, com a polícia de choque e carregam contra a
multidão. O trânsito está bloqueado. A polícia, com o apoio da GNR, reprime a
tiro. É a força desmedida contra quem se manifesta, pacificamente. São milhares
de pessoas, indefesas, fugindo aos tiros e às cargas sucessivas,
desordenadamente, pela Quinta da Várzea transpondo a linha do Caminho de Ferro,
pela Quinta dos Lóios, pelo Cemitério, pela passagem de nível e pela estrada da
Baixa da Banheira, enquanto os mais jovens respondem à pedrada, servindo-se de
um camião carregado de brita, bloqueado na estrada.
O
Largo 3 de Maio e o Café da Pilar. A vingança do poder fascista surge, terrível.
Dois dias depois, 3 de Maio de 1970, prisões de madrugada. 8 Antifascistas são
levados pela PIDE: do Barreiro, Alfredo Matos e Álvaro Monteiro; 1 de Alhos
Vedros; 1 da Moita e 4 de Setúbal. A população, indignada, sai à rua. Ao fim da
tarde, já são milhares. A GNR reprime. Quando os manifestantes desfilam no Alto
do Seixalinho, a carga é brutal. Muita gente entra na Pilar. Soldados, a cavalo,
invadem aquele café. Pilar protege perseguidos. Mesas pelo ar. Corpos
espezinhados. Gritos de dor e de revolta. Assassinos! Liberdade para os presos!
Há feridos... Para o Barreiro, aquele Largo e o Café da Pilar ficam como um
símbolo da luta anti-fascista. Em homenagem às pessoas e aos acontecimentos, a
Câmara decide designar aquele lugar de Largo 3 de Maio. E a Junta também –
colocou uma placa na parede daquele café. E os 8 presos são levados directamente
para a cadeia da PIDE no Porto. Aí, permanecemos um mês e somos barbaramente
torturados, em interrogatórios contínuos, sem dormir, espancados durante horas,
no período da noite, por vários agentes ao mesmo tempo, durante dias e dias
seguidos, sendo transferidos para o Forte de Caxias, algemados, em estado
irreconhecível, mantendo-nos isolados, sem visitas de familiares, durante o
tempo suficiente para desaparecerem as marcas das sevícias.
Alfredo Rodrigues
de Matos