Na tua juventude a força do povo
Nota Prévia
Voltamos ao nosso simpático Barreiroweb animados de uma dupla intenção,
assinalar os 40 anos da excepcional luta democrática no ano de 1969 e
pré-divulgar um novo projecto editorial em construção: “ Juventude (des)inquieta,
o despertar da malta”.
Num tempo em que as fronteiras eram as do medo,
quando a luta pela liberdade e pela transformação da vida ruim unia o Barreiro,
a Baixa da Banheira, Alhos Vedros, e as suas gentes laboriosas nas mesmas
fábricas e oficinas, frequentando as mesmas escolas e transportes,
construíram-se laços inquebrantáveis tecidos nos exemplos de solidariedade e de
luta generosa que importa dar a conhecer.
Este novo livro, que começou a ser construído juntamente com
outros projectos no início do milénio e agora se ultima, pretende homenagear a
juventude dos anos 60 cuja acção era inspirada pela novel musica, por diferentes
hábitos culturais vindos do exterior, e pelo sonho de fazer um mundo melhor.
Destacamos a sua participação nas grandes jornadas democráticas de 1969 e na
luta subsequente pelo derrube do regime fascista e pelo fim da guerra colonial.
Além do prazer de revisitar as memórias, é minha obrigação de
escritor, historiador e participante activo neste desiderato, lembrar factos,
episódios, pessoas, acontecimentos, corrigindo algumas omissões grosseiras, como
aconteceu recentemente numa efeméride patrocinada pela Câmara Municipal do
Barreiro.
Baseado numa bibliografia documental preciosa, sonegada à
repressão pidesca e guardada solidariamente por mãos amigas, contando com a
colaboração de camaradas e companheiros coevos (a juventude desinquieta que
tinha nas mãos a força do povo), metemo-nos a caminho e vamos contar como foi o
despertar da malta.
Barreiro, Outubro de 2009
Armando Teixeira
1 - Aurora
Juvenil
Os raios suaves iludem os ramos das árvores vestidos de verde
pela Primavera recente e afagam docemente os corpos desabituados pelo longo e
soturno Inverno citadino. Sabe bem estar no meio do campo em tarde de Sol ameno,
com o cheiro a terra húmida e a natureza em germinação. No silêncio telúrico da
mata para as bandas do Rio Frio, só se ouvem as palavras e os risos contidos do
grupo de jovens (cerca de uma dúzia) oriundos do Barreiro, Baixa da Banheira e
Alhos Vedros, juntos em pretenso piquenique como era costume combinar-se na
frente semi-legal do trabalho democrático.
Tudo correra bem enquanto foram poucos, mas agora impunha-se
o alargamento da acção com a juventude, naquele mês de Junho do ano de 1969. Era
tempo de avançar a organização e a luta dos jovens portugueses que adoptaram a
consigna em título: Na tua juventude, a força do Povo!
O tom cordial da cavaqueira ficou menos jovial quando a
proposta interessante do Carlos e da companheira, a Bela (indigitados
coordenadores da comissão), na perspectiva da feitura e divulgação de um jornal
para os jovens, o “Aurora Juvenil”, suscitou algumas observações e sugestões
críticas. Para a mensagem chegar a dezenas, mesmo centenas de rapazes e de
raparigas, era necessário que a maioria dos temas focassem mais os seus
problemas e menos as questões gerais dos “mais velhos”, alvitrava o jovem de
barbicha à moda intelectual a participar pela primeira vez.
Vários vozes de apoio geraram um claro incómodo dos
responsáveis, geralmente as críticas eram mal aceites. O Joca, um dos
lugares-tenente, fez então uma intervenção muito excitada, aparentemente
apelando à unidade, na prática lançando a confusão: “É preciso que a malta lute
contra o fascismo! Se for preciso com armas na mão!....”. Com sensatez, a jovem
coordenadora ultrapassou o silêncio constrangedor e combinou-se a entrega das
contribuições, para que o “Aurora” pudesse sair nos meados de Julho. Apesar de
cumpridas as datas, nomeadamente pelo critico da barbicha, o jornal nunca chegou
a ser publicado e o casal responsável “desapareceu”, incumbido de outras tarefas
no âmbito do Movimento Democrático, como explicou o Joca, indigitado substituto.
Porém, este nunca mais convocou a reunião do grupo/comissão de jovens,
potencialmente alargado com a malta do Barreiro Velho, entretanto mobilizada e que
já se encontrava habitualmente (o Arlindo, o Armando, o Carlos, o João, o Luís, o
Nelson, o “Nhocas”, o Jorge, entre outros).
Após várias “demarches” infrutíferas, com o Francisco Abraços
a servir de intermediário, foi combinado um encontro alargado em meados de
Agosto numa casa emprestada para o efeito pelo Artílio (pai). Era fundamental a
discussão para a aprovação de um modelo organizativo concelhio, integrado na
plataforma aprovada na reunião nacional, em Maio de 1969, do Movimento da
Juventude Democrática em constituição, assente em cinco pontos, conforme
documento do encontro em anexo.
No dia 14 de Agosto de 1969, uma dezena de jovens esperou no
Largo do “Bonanza”, numa tarde de Sol abrasador, os putativos participantes
mobilizados pelo Joca e pelo Francisco. Uma, duas horas!....Não havia como
aguentar as tropelias e as bocas da malta de 18,19 anos, a quem fora “roubada”
uma tarde de praia no Mexilhoeiro. Alguns nunca mais voltariam a aparecer!
(Extraído do livro em preparação: “Juventude (des)inquieta, o
despertar da malta”)

Armando Teixeira