2.
O MOVIMENTO DEMOCRÁTICO DA JUVENTUDE
-
Francisco! Então o que aconteceu? Porque faltaram à reunião? – encontraram-se
dias depois à entrada para a reunião concelhia do Movimento Democrático/CDE, no
Cine-Clube do Barreiro:
-
Bom! Sabes!... O Joca…!
- Ó homem,
desembucha! O que foi?
- Bem!... O Joca não
mobilizou ninguém porque diz que não te conhece e não sabe como apareceste!...
Tem receio que sejas da PIDE!
- F…-se, pá! Da
PIDE?!... Tá maluco!
A noite ficou estragada e
a reunião dos “mais velhos” também não ajudou muito, com frequentes picardias
entre os dois presumíveis líderes que se contraditavam sem razão aparente. O
busílis da questão era a próxima escolha de candidatos.
Donde vinha, da aguerrida,
generosa e idealista frente de trabalho associativo estudantil, havia mais
fraternidade e eficácia nas discussões internas para fazer face às tremendas
batalhas académicas em curso nesse ano, conforme era circunstanciado na
“Declaração do Movimento Democrático Eleitoral sobre a Crise Universitária e a
Luta Estudantil”, de 3 de Agosto de 1969 (em anexo). As orientações discutidas
com o responsável do organismo estudantil do PCP, em Lisboa, eram claras, os
camaradas estudantes deviam integrar as organizações democráticas locais,
impulsionando o trabalho unitário com a juventude.
Era agora mais
difícil mobilizar a malta, depois da reunião frustrada em meio de Agosto.
Tinha-se perdido muito tempo inconsequentemente, era necessário avançar
rapidamente na frente juvenil concelhia e regional, dadas as estreitas ligações
à Baixa da Banheira e a Alhos Vedros.
As bases de um
Movimento de Juventude a nível nacional estavam lançadas, sendo sucessivamente
aprovadas em dois encontros em Agosto (um nacional, em 23/8/1969, e o outro de
âmbito regional, em 30/8/69, na Mata dos Medos, na Costa da Caparica). O Armando
e o Carlos estiveram presentes pelo Barreiro, na discussão e aprovação dos
seguintes princípios programáticos (documento em anexo):
- Condenação da
Guerra Colonial e do sacrifício exigido a milhares de jovens.
- Libertar Portugal
da estreita dependência do imperialismo e de uma política financeira ruinosa.
- Lutar pela
democratização do ensino e pelo acesso à Universidade.
- Reivindicar
melhores condições de trabalho e de salários para os jovens e para todas as
classes trabalhadoras
- Exigir o direito
de voto aos 18 anos.
Nessas reuniões foi
também aprovada a realização de um Encontro Nacional nos finais de Setembro, em
Aveiro. Havia pois a necessidade urgente de constituir a Comissão de Jovens do
Barreiro:
- Nhocas, temos
fazer uma reunião, para criar a nossa comissão!
- Mas aonde vamos
reunir, não temos casa?!...
- Pode ser na
minha!... Ou na tua!
*
Nos princípios de
Setembro fez-se finalmente a primeira reunião de trabalho. Não eram muitos, não
mais de meia dúzia, mas lançou-se a estrutura que iria permitir o alargamento da
acção dos jovens barreirenses, no futuro imediato (período eleitoral para a
Assembleia Nacional), ou mais longínquo, nos princípios da década de 70, na luta
pelo derrube do regime fascista, e pelo fim da Guerra Colonial, em que a
juventude portuguesa, organizada em vários níveis, unitário, estudantil,
laboral, teve um papel importante.
Os dias nos
primórdios de Setembro, naquele ano de 1969, estavam sorridentes, embora muito
quentes ainda mas menos agressivos, no fim de um Verão que já fazia saudades do
futuro. A manhã fora passada na “praia dos tesos”, em renhida partida de
futebol, nas coroas de areia da maré baixa. Ao fim da tarde, quase os mesmos,
juntaram-se para tratar de coisas mais sérias. Só o jovem de barbicha não
participara nas brincadeiras matinais, vinha de propósito de Lisboa, da escola
onde era presidente da Associação de Estudantes, e onde já se trabalhava
rijamente, na preparação do novo ano lectivo e das lutas que se perspectivavam.
- Vai abrir a sede
do Movimento Democrático na casa do Zé Jordão! – a boa notícia abria novos
horizontes.
- Óptimo! Então
vamos organizar uma reunião alargada, cada um convida mais três ou quatro.
Acertaram fazer-se
uma saudação no início do encontro, uma proposta de organização da comissão de
jovens, outra de estruturação do trabalho e dividiram-se as tarefas.
À despedida um
secreto entusiasmo animava aqueles jovens pouco experientes nas lides políticas,
mas com a convicção de que participavam num momento excepcional da história
portuguesa em que se rasgavam caminhos do futuro.
(Extraído do
livro em preparação: “Juventude (des)inquieta, o despertar da malta”)
Armando Sousa Teixeira

