Notas
à margem... esquerda...
Duas palavras. .
Quem, acostumado aos ruídos constantes da capital, se desloca à pacata vila
do Barreiro, sente logo que está numa terra onde a ordem do silêncio e do
trabalho se cumpre com escrupuloso empenho. O método de vida, a sistemática
maneira de valorizar e aproveitar o tempo e os afazeres, constituem as bases
seguras em que assenta a epopeia desse pequeno povo e desse pequeno burgo -
enormes na sua pequenez — que retemperam o aço rijo de toda uma Pátria Grande na
forja rubra da sua alma estóica.
E
são os braços lusos, é o esforço nacional, nas estrofes cantantes da bigorna e
no resfolgar metálico das máquinas, que, ali, numa enseada da margem esquerda do
Tejo, a poucas jardas de Lisboa, fazem do Barreiro a oficina de Portugal. Tudo é
cadência e harmonia nessa capital do Trabalho.
Sobre o Barreiro
E se o movimento das suas largas e modernas avenidas e ruas
não corresponde, em certas horas do dia, ao número elevado da população, é
porque todos os braços sadios e todas as energias aproveitáveis são chamados ao
labor hercúleo da fábrica e à tarefa heróica da oficina. E é por detrás daqueles
muros altos e dentro daqueles casarões cinzentos, cobertos de zinco, que vivem
os habitantes da vila, na formidável luta do dever. É lá que se modelam as almas
dos operários portugueses, juntamente com o bronze duro em que se fundiram os
seus corações, nesse monumento gigantesco que levantaram à Pátria — O Trabalho.
O silêncio da rua contrasta com o sussurro mecânico das fábricas, a vomitar,
duma floresta de chaminés, o seu fumo negro, que vai sujar o céu límpido e azul.
Mas esse penacho escuro que se desenrola em espirais no infinito, por sobre a
casaria e por sobre Portugal inteiro, é como que um sinal de valor e de
progresso, levantado bem alto para que todos o vejam.
Os
blusas azuis
Ao meio dias, quando chega a hora do almoço e do descanso, as
ruas, até então quase desertas, movimentam-se de repente com a multidão de
operários que os grandes portões das oficinas, abertos de par em par, lançam
para a vila. E os fatos azuis, de ganga, dão uma nota interessante e colorida,
no aspecto sossegado do burgo.
Os “blusas azuis”, firmes, dignificados pelo rigor do
trabalho, até na rua e na sua “hora”, mostram aprumada disciplina moral e fiel
cumprimento do seu mister de homens de acção e movimento. Aos grupos, passo
apressado e regular, como se marchassem para a frente de uma batalha de ideias e
pensamentos, aqueles homens não acotovelam ninguém e não procuram tolher na via
pública a recta dos que passam. A ordem e o aprumo com que vão da oficina a casa
e de casa à oficina mostram bem que eles são os soldados da paz e do progresso,
neste Portugal de nós todos sem as peias de uma preguiça rotineira e doentia,
que já fez a sua época, e sem a moleza de movimentos derrotistas, que também já
passou do uso, aquelas massas de operários portugueses são o exemplo vivo de um
Portugal ressurgido e grande, que é, mais uma vez, o assombro do mundo inteiro.
Depois a vida normaliza-se. Os trabalhadores ingressam, de novo, nas fábricas,
as ruas voltam à pacífica quietude anterior, enquanto que as máquinas entram de
se fazer ouvir na sua música de todos os dias. É a canção vibrante do
Trabalho...
Ruas e Praças
Passado
o movimento, aquele movimento matemático, metódico e instantâneo, que
caracteriza o Barreiro, sentimo-nos, de novo, quase sós nas ruas da vila. Vamos
percorrê-las. A rua Miguel Bombarda é uma das mais compridas e belas. Tem bons
edifícios e é a de maior movimento. As avenidas da República e da Bélgica primam
pelas suas linhas modernas e elegantes e pelos prédios recentes, de estilo
futurista, que as marginam. São também modernas as ruas Combatentes da Grande
Guerra, Alexandre Herculano, assim como muitas outras de bom piso e traços
originais. Algumas estão ainda em construção e outras carecem apenas de
pavimento. Bem arruada e limpa, a vila do Barreiro possui também lindas e amplas
praças, encantadores jardins e soberbos parques.
O Parque Infantil, a Praça Luís de Camões e o Largo da
República impõem-se pelo artístico e pelo desvelo com que são tratados. A relva
e as flores dos canteiros merecem cuidados e carinhos especiais. As igrejas de
Nossa Senhora do Rosário e de Santa Catarina emprestam ao Barreiro, no seu
estilo antiquíssimo e venerando, a suave religiosidade e a maviosa crença do
povo português. São pequeninas, mas muito velhas e carcomidas, e devem ter, por
isso, tradições lindíssimas, como, afinal, as têm todas as nossas igrejas. São
duas relíquias do passado que não ficam nada mal no conjunto futurista do burgo,
e que se torna necessário guardar e conservar para honra de todos nós........
continua.....
Por:
CUNHA CORREIA
IN:
Gazeta dos Caminhos de Ferro
No Ano de 1940
