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Sociedade : A Freguesia do Barreiro e os 100 Anos da CUF/Quimigal em 2008/3/5 12:10:00
Integrada nas comemorações do 521º Aniversario da Freguesia
do Barreiro, a Junta de Freguesia organizou uma sessão sobre “A Freguesia do
Barreiro e os 100 Anos da Cuf/Quimigal”, com ex-trabalhadores da Cuf/Quimigal. A
apresentação do tema foi feita com o apoio do Movimento Barreiro Património
Memória e Futuro, no dia 2 de Março de 2008, no Auditório da Biblioteca
Municipal do Barreiro.
“O Barreiro é conhecido como a terra do trabalho e transporta na memória lutas
de gerações e continua a dar vida aos sonhos, defendendo os valores da
democracia, da justiça social e da cidadania conquistadas em Abril”, este foi o
mote lançado por Raul Malacão, presidente da Junta de Freguesia do Barreiro,
para a discussão do tema.
Júlio Dias começou por historiar o desenvolvimento do Barreiro, desde a criação
da freguesia até hoje. A fundação do Barreiro remonta a 1487, aquando da criação
da Paróquia de Sta. Cruz, por D. João II. No período da Revolução Industrial, em
1859, chegou ao Barreiro o Caminho-de-Ferro, o embrião da nova vila-operária em
que se transformou esta terra, com a criação das primeiras fábricas da CUF no
Barreiro, a partir de 1907.
A apresentação do tema central “A Freguesia do Barreiro e os 100 Anos da Cuf/Quimigal”
coube a Armando Teixeira que numa pormenorizada exposição falou sobre a história
da CUF e as lutas políticas e reivindicativas dos trabalhadores desta empresa,
cuja concentração operária atingiu nos anos 50 mais de 10.000 trabalhadores.
Em 1910, a CUF era ainda uma pequena empresa, com cerca de 100 trabalhadores. É
nesta altura que se dá a primeira greve na empresa e, parcialmente, acompanhada
pelos corticeiros.
No período da 1ª Grande Guerra (1914-1918) dá-se a primeira grande acumulação de
riqueza na CUF, à custa da especulação de preços, derrotando a concorrência com
a baixa de preços dos produtos e avançando para a concentração industrial, que
viria a dar lugar ao monopólio, com a junção do capital financeiro, através do
Bando Totta.
Em 1919, já com cerca de 300 trabalhadores, dá-se a primeira grande luta dos
trabalhadores da CUF, reivindicando as 8 horas de trabalho, aliás uma medida já
contemplada na legislação da época, mas que Alfredo da Silva não acata, nestes
primeiros anos.
Modelo Paternalista
Alfredo da Silva implanta na CUF um modelo paternalista, construindo casas, a
cantina, a escola e outras benesses sociais para fixar os trabalhadores próximo
das fábricas, modelo que se viria a desenvolver com o decorrer dos anos, pela
família Mello.
Nos anos 30 e 40 a CUF expande-se com novas fábricas e o porto fluvial. Em 1930
tem 2600 trabalhadores, em 1940 tem 6.000 e em 1950 atinge os 8.000, tendo a
vila do Barreiro cerca de 26.000 habitantes.
Nos
anos 50, a CUF cresce rapidamente atingindo os 8.000 trabalhadores, conquista
mais terrenos ao Tejo e estende-se para o Lavradio.
A seguir à greve de 1943 veio a repressão. Alfredo da Silva fez o loock-out e
obrigou os trabalhadores à readmissão com perda de regalias anteriores, havendo
quem ficasse 15 dias sem se reinscrever e sem ganhar o sustento, e outros nem
sequer foram readmitidos.
O Barreiro ficou ocupado militarmente pela GNR que aquartelou no Barreiro e nas
fábricas da CUF, permanecendo até Abril de 1974.
As novas fábricas, mais automáticas, têm mais exigências tecnológicas e de
pessoas mais qualificadas e especializadas, daí a construção da Escola
Industrial e Comercial Alfredo da Silva, em 1947, e, mais tarde, os centros de
formação profissional, chamados de Escola de Aprendizes.
Carlos Alberto (Carló) explicou que as regalias sociais na CUF tinham como
objectivo o retorno económico e a redução de impostos. Os bairros, as escolas, o
infantário, a creche, o posto médico, o hospital, a despensa, a colónia de
férias, o cinema, as actividades culturais, o desporto, estavam inseridos no
superior interesse da empresa, embora também no interesse dos trabalhadores, e
só se mantiveram enquanto interessaram à empresa. “Estas benesses sociais
obviavam o aumento geral dos trabalhadores, sendo causa da má redistribuição da
riqueza”, acentuou.
Em 1963 trabalham na CUF 8.355 trabalhadores. Em 1974 são apenas 8.200 os
trabalhadores.
Comissão Interna da Empresa
Em 1962, é criada a Comissão Interna da Empresa (CIE) que visava estancar a luta
reivindicativa dos trabalhadores. Em 1965, um operário, membro da CIE, leva uma
proposta de aumento diário de 15 escudos. O patrão dá um murro na mesa e diz
que, a partir daquela altura, deixa-se de falar em aumentos de vencimentos nas
reuniões.
Em 1974, a CUF detinha 187 empresas e participações em mais de 254 empresas. Era
um grande monopólio.
O 25 de Abril foi conquistado com muita luta, durante dezenas de anos, e também
pela luta de muitos trabalhadores da CUF do Barreiro. A Revolução de Abril foi
antifascista, mas também foi anticapitalista.
“O sistema capitalista baseia-se na exploração do homem pelo homem, que não dá
quanto pode, não distribui o que deve, reprime quem protesta, angustia quem
produz e enriquece quem explora. Não é este o futuro da humanidade”, concluiu
Armando Teixeira.
Seminário Internacional
A vereadora municipal Regina Janeiro saudou a Junta de Freguesia do Barreiro,
pelo seu aniversário e pelas iniciativas que tem realizado, nomeadamente junto
das crianças da freguesia. A autarca salientou a importância da população do
Barreiro, “uma terra de trabalho, de resistência e de luta, e dos trabalhadores
fabris no desenvolvimento do complexo industrial da CUF”.
Regina Janeiro disse que os estudos feitos para o território da CUF apontam para
que o Barreiro possa voltar a ter a importância que teve nos últimos 100 anos e
possa contribuir para o desenvolvimento do país.
A vereadora revelou ainda um momento alto das Comemorações dos 100 Anos da CUF,
em Outubro deste ano, que é um Seminário Internacional sobre a CUF e a
Industrialização no Século XX, que será aberto a pessoas que queiram dar o seu
testemunho.
Seguiu-se um período de intervenções, com o testemunho de alguns
ex-trabalhadores da CUF/Quimigal presentes na sessão.
No final, o presidente da Junta de Freguesia do Barreiro deixou uma mensagem no
sentido de que “este trabalho de divulgação dos 100 Anos da CUF possa continuar,
particularmente entre as crianças, às novas gerações”. Deixou a mensagem no
sentido de que este trabalho de divulgação dos 100 Anos da CUF possa continuar,
particularmente entre as crianças, às novas gerações.
J. BA
in www.rio.pt
12.03.2008. 02:27