![]() |
![]() |
4ª
Etapa: Palhais
Quando nos referimos à salvaguarda do Património Cultural Material e Imaterial, devemos pensar imediatamente em processos de mobilização da população, em formas de participação efectiva quer na estruturação do Projecto quer na monitorização do seu processo de realização.
Porquê a importância desta mobilização e participação?
Muitas podem ser as respostas. Vamos elencar algumas, deixando para o leitor a possibilidade de encontrar outras.
Porque somos indispensáveis para travar os mais diversificados agentes de degradação – a poluição, as catástrofes naturais, a ignorância de homens como nós, o alheamento de alguns responsáveis, a cobiça individual ou de grupos com interesses puramente económicos e especulativos.
Porque temos uma responsabilidade colectiva feita de direitos e deveres e uma história.
Porque a cooperação estreita garante formas mais eficazes, criativas e com maior sustentabilidade, possibilitando em maior grau o êxito na realização dos projectos.
Porque cada geração conserva e recria um legado que tem o dever de transmitir às novas gerações.
Porque, certamente, não queremos ser uma população amnésica, privada de memória colectiva e de identidade, construídas ao longo de séculos.
Ou tão simplesmente porque vivemos em democracia, pagamos os nossos impostos, somos cidadãos (temos o dever de intervir com lucidez, responsabilidade e integridade) e somos os usufrutuários dos bens a preservar.
E agora, que já se faz tarde, vamos até Palhais, que no aconchego do rio Coina, sabemos já existir em 1392, mas cujo papel, do ponto de vista sócio-económico, tem relevo particular no contexto da Expansão Portuguesa – período dos mais significativos da nossa história local e nacional, com significado internacional.
O Complexo Real de Vale de Zebro (séc. XV) – onde era fabricado o biscoito, alimento base do Terço da Armada Real, dos Fortes de Costa e das tripulações, durante a grande aventura planetária que foi a expansão, aqui se localiza.
Este Complexo era constituído por 27 fornos para a produção do Biscoito, cais de Embarque, Armazéns de Cereais, um Moinho de Maré de oito moendas, o maior a trabalhar naquela época, no rio Coina.
A montante, nos Fornos Cerâmicos da Mata da Machada – o nosso Pulmão Verde – entre outras tipologias, fabricavam-se as formas do biscoito e as formas do pão-de-acúcar que eram enviadas para a Madeira e, mais tarde, para o Brasil.
Na época, a zona ganha uma feição cosmopolita patente na diversidade social e de origem das gentes e nas inúmeras profissões – administradores e mestres dos fornos, biscoiteiros, pilotos, negreiros, comerciantes, lapidários de diamantes, gentes da Guiné, Mina, Angola, Brasil, escravos….
É também na segunda metade do séc. XV, que se pode falar com maior segurança sobre a fundação da Igreja de Nª Sª da Graça, ligada à constituição da paróquia e, como sinónimo desta, surge a palavra Freguesia, que na origem significa Filhos da Igreja.
Esta informação leva-nos a afirmar que, muito provavelmente, a Freguesia de Palhais data da segunda metade do séc. XV.
|
Igreja da NªSª da Graça: fundada na segunda metade do séc.XV, foi construída pelos moradores com os auspícios da Ordem de Santiago. A classificação do Portal Manuelino como Monumento Nacional (1922) e a Definição de uma Zona Especial de Protecção (1958) permitiu o seu restauro e reabertura ao culto. A sua história cruza-se com a do Complexo Real do Vale de Zebro, onde era produzido o biscoito. Esta unidade produtiva possuía mão-de-obra escrava o que justifica a existência na Igreja de uma Confraria de NªSª do Rosário dos Homens Pretos, em 1553. |
![]() |
|
Vista panorâmica de Palhais: em primeiro plano o Sapal do rio Coina. No casario destaca-se, à beira-rio, o Edifício dos Fornos de Cal (séc. XVIII) e a Quinta da Estalagem. No meio da vila, a Igreja de NªSª da Graça. À esquerda junto ao rio o Moinho de Maré de Palhais. Por Carta Régia, de D.João II ficamos a saber da sua existência a partir de 1485, bem como o nome do seu proprietário Pero Mealheiro, familiar de Lopo Rodrigues Mealheiro, cavaleiro da Ordem de Santiago. Este património prova a precocidade de certas actividades produtivas no território que hoje constitui o Barreiro. Esta precocidade na indústria moageira liga-se em grande parte à Expansão Marítima e à necessidade de produzir o biscoito, alimento base das Armadas. |
![]() |
Associação Barreiro Património Memoria e Futuro
17.05.2010. 15:05
Este artigo ainda nao foi comentado
Escreve e comente
* = Requere preenchimento